quarta-feira, 9 de julho de 2008

Sociedade secreta dos pintores do céu - 1º capitulo



— E esse sonho vem se repetindo há várias noites — disse Maria, dez anos de idade, cabelos negros longos e lisos presos num rabo de cavalo, olhos castanhos, corpo frágil e pálido como o da mãe. Diante dela, uma platéia atenta de nove amigos que seu sonho repetido havia lhe mostrado. Estavam todos reunidos na pequena casa de Giorgio Moraes — um menino mirrado de treze anos que escrevia poemas nas paredes da escola e os assinava como Vampiro Solitário, sendo ele mesmo um dos nove que compunha a platéia. Giorgio tinha cabelos excessivamente lisos, penteados no melhor estilo emo (ele rebatia essa afirmação dizendo que aquele corte era estilo Beatles). Quando o perguntavam sobre o que ele queria ser quando crescesse, a resposta surpreendia por não ser a mesma coisa que toda criança costumava dizer sobre ser astronauta, piloto de caça ou médico. Ele dizia que seria escritor. Um poeta, como Fernando Pessoa. Em sua linha do destino, porém, estava escrito que seus passos enveredariam pelo romance de aventura.
No sonho de Maria, aquelas nove crianças se juntariam a ela numa aventura que certamente os adultos classificariam como surreal, uma fantasia que deixaria para trás qualquer um dos amalucados quadros do pintor espanhol Salvador Dali. Mas era muito óbvio que os adultos jamais saberiam daquela missão antes que ela estivesse totalmente concluída. Afinal, se existe uma coisa que as crianças de qualquer época sabiam dominar, essa coisa recebia o nome de A Arte de Manter Segredo.
— Mas como iremos reconstruir e pintar o céu, Maria? — perguntou Rachel, onze anos de pura inquietude a lhe pesar sobre os ombros. Magrela e desengonçada, era a pateta da turma — apesar de muitas vezes assustar a todos com seus rompantes de maturidade ácida. A voz da menina ao fazer a pergunta vinha carregada de uma angústia muito típica dessas crianças que estão amadurecendo precocemente, mas Maria também pensou ter percebido um ar de deboche velado naquela pergunta (amadurecimento e desdém mantêm uma relação de amor imortal entre si, caso não saibam). O resto dos ouvintes entreolhou-se num disse-que-disse digno de uma feira, dando a entender que a pergunta de Rachel refletia a dúvida de todos ali presentes. Maria sentiu-se encolher um pouco diante da situação, mas decidiu não se entregar. Na verdade, ela não podia mais se dar ao luxo de entregar os pontos. Se entregar significava, necessariamente, desistir, voltar atrás, assinar uma espécie de atestado de óbito da credibilidade diante dos colegas. Toda criança gostava de ser levada a sério pelos seus pares. Era preciso, portanto, ser forte a partir de agora. A brincadeira acabou, pensou ela, com ar sério. Eu, no entanto, tive que sorrir. Pra mim, aquilo tudo era uma grande brincadeira.
— Teremos de montar uma escada — respondeu, olhando firme para Rachel e em seguida para os outros. — E criar a tinta com que faremos a pintura.
Vi que algo em sua mente protestou de maneira tímida sobre aquilo ser simplesmente uma idéia ridícula, mas ela resolveu não dar ouvidos ao que considerou uma conversa fiada da parte podre do pensamento. Talvez o deboche de Rachel a estivesse contaminando. Pior do que debochar dos outros é debochar de si mesma, pensou ela. Resolveu continuar a falar.
— Uma escada que nos faça chegar ao céu para podermos cumprir a missão que Candace me...
— Quem é Candace? — interrompeu Joana, a quem os meninos apelidaram de Joana Banana devido ao seu jeito bobão de ser. Pra ser sincero, Joana era uma daquelas garotas que você gosta logo no primeiro olhar. Com sua voz mansa, ela dizia que não era bobona, e sim introvertida. De fato, Joana era bem tímida até mesmo com seus amigos de escola e condomínio. Mas isso não significava, de forma nenhuma, que ela fosse idiota. A ela se encaixava com perfeição aquele ditado que diz que as aparências enganam. Por trás de seus olhos cor de mel e de suas mãos frágeis se escondia uma garota extremamente atenta aos detalhes que normalmente passavam desapercebidos aos outros. Eu a via como uma águia. Ou como um leão. Sua linha do destino, que eu aproveitava para observar agora, mostrava que ela seria uma mulher muito influente na sociedade.
Abro aqui um pequeno parágrafo: essa guerrilha entre meninos e meninas pré-adolescentes é algo interessante de ser observado, vocês não acham? Eles brigam, xingam, se apelidam, mas no fim das contas se completam com uma perfeição de dar inveja.
Voltando ao assunto, o fato é que Maria — na ânsia de contar logo o motivo da reunião — esqueceu por completo da importância dos pormenores. Tonta, disse eu aos ouvidos de todos. Ninguém pareceu me ouvir. E Maria emendou quase que de imediato.
— Candace é a mulher que passeia comigo em meus sonhos. Eu vou à cidade onde ela mora e juntas damos voltas em bicicletas feitas de arco-íris e água de chuva.
As imagens do sonho que Maria contou pareceram se materializar diante dela. Lá estavam as cachoeiras cujas águas caiam em câmera lenta; as pequenas fadas que falavam palavras luminosas; enormes montanhas cujos cumes permaneciam suspensos no ar, desafiando qualquer noção humana de gravidade; faunos passeando por entre as densas florestas; crianças vestidas de vermelho, pulando corda com seres que pareciam feitos de névoa. Numa estrada calma, ela via Candace em pé ao lado de duas bicicletas. Maria, ao correr em direção a ela, simplesmente flutuava, como se seu corpo perdesse todo o peso em um passe de mágica. Ela era carregada pelos braços por milhões de borboletas azuis, que a chamavam pelo nome. Por mais estranho que parecesse, tudo ali era absolutamente real. O cheiro, os sons, as cores: tudo se vestia de existência.
— Que lugar é esse? — perguntava Maria.
— O Lugar Atrás Das Nuvens — respondia uma das borboletas.
Então esse era o nome daquele lugar de sonhos reais, pensava Maria. E era exatamente isso que fazia tudo ter sentido na cabeça da menina. Não era simplesmente um sonho recortado em bilhões de pedaços desconexos — com cenas e pessoas fora de foco, diálogos desprovidos de senso lógico ou números que ninguém mais conseguia lembrar depois que acordasse. Tudo obedecia sempre um mesmo ritual que culminava no seu encontro com Candace. Juntas, elas passeavam e conversavam. O sonho era cíclico, mas era como se fosse sempre a primeira vez: a surpresa inicial da cachoeira, o susto com as borboletas, a visão de Candace. Era o tipo de repetição que jamais cansava aos olhos. O tipo único de repetição, dizia ela pra si mesma.
Maria adoraria que seus amigos pudessem ver o esplendor de tudo aquilo. Talvez assim acreditassem nela sem a necessidade de tantas perguntas carregadas de desconfiança e medo. Foi num desses passeios que Candace mostrou à garota que o céu havia desmoronado. Apesar de ter sonhado aquela cena por pelo menos uma semana, Maria sempre pensava ter entendido mal a frase. O céu não podia desmoronar. Qualquer pessoa tinha absoluta certeza disso. Tão certo quanto o dia em que a morte visitaria cada família sobre a Terra. Candace tomava Maria pelas mãos e ambas se aproximavam do abismo. Uma falha no céu. Um rasgo numa colcha bordada com cuidado extremo. Uma apunhalada certeira na morada dos deuses. Ver o céu assim era estranho. Maria achava que qualquer pessoa sentiria essa estranheza se estivesse ali.
Maria podia ver o mundo lá embaixo. Parecia tudo tão frio visto daqui, pensou a menina. Acho que não apenas parece, Maria. A frieza que você apenas adivinha de fato se espalha no mundo como uma cortina de sombras bem reais. Mas creio que isso você descobre com o tempo.
— Há uma fada que ficou sem casa, Maria — dizia Candace com um ar triste.
— Mas por que vocês não consertam tudo?
— Porque essa missão é sua, querida.
— Minha? — perguntou Maria, assustada como se tivesse visto um fantasma.
Foi nesse momento que Candace revelou à Maria o plano de reconstrução daquele pedaço do céu. Maria e mais nove amigos deveriam unir forças e construir uma escada que os levasse ao céu. Uma vez ali, deveriam monta-lo e pinta-lo novamente, dando assim um novo abrigo ao anjo sem lar. Maria alternava o olhar entre Candace, o pedaço partido do céu e o mundo lá embaixo. Estava um tanto quanto incrédula, mas resolveu não permitir que isso transparecesse. Não sabia o que diria Candace se notasse que ela já estava fraquejando antes mesmo de tentar. Provavelmente a veria como uma menina ridícula.
— E onde está o pedaço partido do céu? — perguntou a menina. — Poderíamos usa-lo na construção?
— Um pedaço partido de céu é como uma estrela que morre: não pode mais voltar a ser o que era antes. É preciso que se faça tudo outra vez.
— E a fada? Onde ela está agora?
— Em um lugar que você logo saberá.
— E quem partiu o céu? — perguntou Maria.
— Um demônio chamado Sombra. Ele é um espírito do Clã Dos Sem Coração.
Era nesse ponto que o sonho sempre chegava ao fim. Era engolido por uma nuvem de fumaça, e tudo desaparecia. Sempre que Maria abria os olhos, o dia anunciava-se lá fora. Mas a menina não esquecia daquelas imagens nem sequer por um minuto durante o dia. Continuava tudo nítido. Tudo vívido. Tudo com aquele inconfundível cheiro de realidade. Maria se perguntava um milhão de vezes quem seria esse tal demônio que atendia pelo nome de Sombra. Por qual motivo ele havia feito aquilo com o céu? Ela estremecia ao lembrar daquelas palavras que sempre soavam como uma espécie de advertência: Clã Dos Sem Coração. Ela tinha certeza que eles não faziam parte dessa família à toa.
Algo dentro dela dizia que suas perguntas seriam respondidas em um futuro muito breve. Ela só não conseguia dizer se gostaria de conhecer as respostas.
Ao mesmo tempo em que pensava todas essas coisas, o protesto da mente — inicialmente pouco ousado — tornou-se um verdadeiro gigante. Em um piscar de olhos, ele pareceu criar voz somente aos ouvidos da menina. Era uma voz que estranhamente não podia ser identificada como sendo masculina ou feminina. O único fato sentido, sem sombra de dúvidas, era a sua firmeza. Maria, você não pode simplesmente chegar aqui e dizer que nove crianças precisam se unir a você numa jornada digna de internação imediata em um hospício. O que está tentando criar, afinal? Uma nova Odisséia? A propósito: como é mesmo que você chama esse grupo? Ah, sim! A Sociedade Secreta dos Pintores do Céu. Santa estupidez, Maria! O que acha que está fazendo, mocinha? Você nem mesmo sabe o que quer ser quando crescer, ora bolas! Como pensa em construir uma droga de escada que toque o cume do céu, para então pinta-lo em cores vivas? Isso sem falar que você nem explicou de maneira lógica a existência dessa tal Candace. Uma mulher que anda numa bicicleta feita de arco-íris? Diante disso, só posso me ajoelhar à sua frente e gritar em desespero: COMO? Francamente... seus pais não se orgulhariam nem um pingo em ouvi-la defender essa tese. De todo modo, ficarei aqui para te salvar desse lamaçal de coisas sem sentido no qual você insiste em afundar a cabeça.
Esse é o lado adulto do cérebro, pensou Maria. Afinal, não era isso que ela costumava dizer à sua mãe quando pensamentos conflitantes a assaltavam no meio de uma argumentação que ela considerava importante? Pois bem: lá estava o germe da contrariedade a roer a força da sua idéia, a desfazer os castelos do seu sonho muitas vezes repetido, a apodrecer as cores que ela lutava para imprimir nas próprias palavras. Esse germe é o lado que pensa nas impossibilidades, nas dificuldades, no quão ridículo soa isso, no quão ridículo soa aquilo outro. Sua mãe respondia que ser adulto é ter medo de se aventurar. Maria sempre ficava feliz ao ouvir a mãe admitindo que a coragem pertencia ao reino da infância, apesar de não conseguir afirmar se a mãe dizia aquilo apenas por dizer. Ela já havia percebido que os adultos tinham uma forte e estranha tendência a esse tipo de postura. Falar por falar significa ter que fazer a política da boa vizinhança; posar de boa gente; ser tudo aquilo que esperavam; não decepcionar ninguém. Motivos não faltavam para que cada um se justificasse. Maria chegava a pensar que tal maneira de agir talvez fosse uma forma de se proteger da indiferença do mundo. Mas sempre terminava concluindo que falar o que se sente continuava a ser a melhor forma de viver. Espero não me tornar indiferente quando for adulta, costumava dizer para si mesma diante do espelho enquanto arrumava seus longos cabelos negros.
Eis um fato concreto sobre Maria que merece um parágrafo mais alongado: ela era vaidosa. Aos 10 anos de idade, sob os cuidados da mãe, ela já usava alguma maquiagem. O pai brigava contra aquilo que ele chamava de amadurecimento negativamente precoce incentivado por quem deveria conte-lo. Achava tudo exagerado demais: roupas, brincos, pulseiras, anéis, sandálias. Tudo desnecessário, dizia ele. Completava sua teoria dizendo que não tardaria o dia em que Maria chegaria em casa dizendo que já se sentia pronta para morar sozinha. Mas as mulheres — independente de suas idades ou classes sociais — ignoram os protestos masculinos de forma categórica, sem lançarem mão de longos discursos. Usam apenas o seu melhor olhar não seja bobo e dão a conversa por encerrada. Isso é uma regra sem exceção, praticamente um postulado científico comprovado através da observação e da convivência. E sabe o que mais irrita e surpreende e enlouquece os homens? Constatar o fato de que as mulheres sempre têm razão. Como se a razão fosse uma filha gerada por elas em noites de lua alta e céu sem nuvens. Mulheres são mães da razão. Tomem isso como regra universal.
Seus pensamentos (e os meus) foram interrompidos pela voz estridente de Miguel, que àquela altura estava tão alvoroçado quanto um gato perseguido bem de perto por uma matilha de cães.Ele era filho único do pastor Samuel, homem dado a terríveis mudanças de comportamento e humor. Sua mulher quase sempre reclamava dele na rodinha de fofoca das mulheres casadas do bairro. Ela ainda acrescentava que ultimamente ele andava com sérios problemas relacionados ao acúmulo de gases, o que já havia causado situações constrangedoras tanto em casa quanto em público. Miguel — que já havia presenciado inúmeras vezes as tais situações constrangedoras — era um moleque de formas arredondadas que usava óculos de armação preta no estilo “fundo de garrafa” e vivia quase sempre com o nariz escorrendo. O somatório dessas características lhe emprestava a aparência de um bizarro personagem de desenho animado, talvez algo que pudesse ter saído da mente de Tim Burton. A verdade é que ele era gordo demais para seus doze anos. Quando estava de bermuda e sem camisa, podia-se ver uma grande quantidade de banha pulando por todos os lados. Quando ele corria, parecia mesmo que o chão cederia sob o peso de seus passos. Insistia em manter os cabelos castanhos desgrenhados, no melhor estilo Albert Einstein versão infantil. A farda da escola, devido a seu corpo balão, estava sempre apertada, passando a desagradável e angustiante sensação de que ele mal podia respirar. Movimentos repentinos dentro daquela roupa estavam terminantemente proibidos. O que mais posso dizer sobre ele? Bem... Miguel não era do tipo colírio para os olhos. Não mesmo! Estava mais para pimenta. Jamais uma garota sequer olhou para ele. Nem mesmo para rir ou caçoar dele. O garoto era quase uma sombra a escola. Uma vez contaram que ele dirigiu a palavra a uma menina chamada Sofia, que morava em um bairro mais afastado. Mas como ninguém nunca viu a tal menina, a história virou lenda urbana.
No entanto, o que incomodava Maria naquele momento era que muito provavelmente Miguel dispararia as já famosas lições bíblicas dadas por seu pai. Ele sempre fazia isso nos debates da escola. Maria previu um desgosto brotar em algum canto antes que as palavras saíssem da boca do garoto. Uma palavra mal colocada poderia piorar mais ainda uma situação que, diga-se de passagem, já era bastante complicada. Ninguém precisava de mais dificuldades.
— Meu pai uma vez me disse que os homens que tentaram chegar até o céu foram castigados por Deus. Eu não quero ter o mesmo fim, Maria — disse ele com voz chorosa.
Maria revirou os olhos e respirou fundo. Era óbvio que Miguel se apoiaria naquela história sobre a tal Torre de Babel que, de acordo com a Bíblia, foi construída na antiguidade para que todos pudessem alcançar os céus. Deus, ofendido diante de tamanha arrogância, resolveu castigar a humanidade impondo a divisão dos idiomas. Foi assim que, de acordo com a Bíblia, surgiram os idiomas que cada país fala. Uma bela história, Miguel, pensou Maria. Todavia, trazer o conceito de crime e castigo só serviria para colocar mais medo no restante das crianças. E o medo é um combustível que não movimenta carro nenhum, costumava dizer seu pai. A única forma de se salvar, pensou ela, era se apegar ao motivo de estarem todos ali. Aquele era o típico jogo do tudo ou nada, ela disse a si mesma:
“the winner takes it all”, como dizia a canção do Abba que ela tanto gostava de ouvir, apesar das gozações dos amigos que falavam que Maria vivia os anos 70 em pleno ano de 2008. Música fora de moda, era a acusação. Mas o que sabem sobre música esses tontos que ouvem as bobagens que tocam na MTV? Tive que concordar com Maria.
— Gente, gente! — disse Maria, deixando escapar um certo tom de urgência envolta em embalagens da mais pura raiva juvenil — Precisamos manter a lógica da nossa reunião. Desviar o assunto não vai ajudar. Ouçam bem o plano que tenho em mente.